Sob poucos metros de coluna d'água, a luz do meio-dia atravessa a superfície em raios oblíquos e causticas dançantes, banhando um denso prado de *Posidonia oceanica* numa claridade azul-esverdeada que só existe nestes fundos rasos do Mediterrâneo. As longas fitas foliares ondulam em uníssono com a corrente costeira, ancorando um ecossistema de plantas com flor verdadeiras — organismos fotossintéticos enraizados no sedimento calcário, produtores primários e berçários de inúmeras espécies. No centro desta pradaria viva, uma cicatriz oval de areia crua rompe o manto verde: as margens abruptas expõem o matte fibroso, as raízes e rizomas de décadas ou séculos de crescimento lento — estruturas que *P. oceanica* pode demorar mais de um século a reconstituir, tornando esta ferida ecológica uma das mais duradouras do litoral mediterrânico. Ao longo da fronteira intacta do prado, juvenis de sargos prateados, labros jovens, um peixe-agulha enroscado entre as lâminas e camarões translúcidos concentram-se onde o dossel oferece proteção e alimento, enquanto fragmentos de folhas e neve marinha fina derivam livremente pela água iluminada — e minúsculas bolhas de oxigênio, subproduto da fotossíntese ativa, cintilam nas folhas ao sol como sinais silenciosos de um mundo que respira sem testemunhas.