À frente da câmara fixa do lander, a carcaça de um cachalote repousa sobre o lodo escuro como um continente afundado, o seu corpo imenso banhado pelo único cone de luz LED fria que existe neste recanto do oceano — além desse perímetro iluminado, o mundo simplesmente deixa de existir. A pressão nesta coluna de água equivale a centenas de atmosferas, comprimindo tudo com uma constância absoluta, e a temperatura ronda os dois graus centígrados, preservando os tecidos gordurosos que ainda revestem o animal em camadas de sebo pálido e rasgado. Grenadeiros — *Coryphaenoides* sp. — deslizam na fronteira entre a luz e o nada, as suas caudas translúcidas desaparecendo no negro enquanto as suas cabeças pesadas captam por instantes o feixe do lander, num circuito lento e oportunista ditado pela detecção química de óleos e aminoácidos a difundirem-se pela coluna de água. Sobre as feridas abertas, anfípodes hiperdependentes formam carpetes vivos e frementes, cada indivíduo a escavar e consumir a blubber com uma eficiência coletiva que pode remover toneladas de biomassa em questão de dias — este é o primeiro acto de uma sucessão ecológica que durará décadas e sustentará centenas de espécies. A neve marinha faísca através do cone de luz como estática congelada, e algures para além do alcance do lander, pontos de bioluminescência azul-esverdeada piscam e apagam-se sem testemunhas, num escuro que existia muito antes de qualquer olho humano alguma vez ter descido até aqui.